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#03
O SUCESSO BRASILEIRO
Astolfo Muniz
Mineiro de Governador Valadares, Astolfo Muniz, de 44 anos, experimentou, pelo menos, três carreiras até chegar à que lhe deu satisfação e prosperidade. “Tive sorte na vida, mas ralei muito até chegar aqui”, afirma. Astolfo é um florista criativo, um mago que transforma flores, folhas, grãos, pedras e até capim em belos arranjos. Ele explica: “Não faço arranjos de flores, mas harmonização da natureza.” Na conversa com Astolfo, num café perto da sua loja “Brasil, plantas e flores”, na esquina das avenidas Córdoba e Callao, fica claro que o brasileiro é um batalhador. E que ainda hoje, apesar da lista de clientes famosos, trabalha muito, e com entusiasmo, para fazer suas combinações com pitadas da natureza.

Astolfo tem dois lemas, base de seu sucesso: criatividade e persistência. “Qualquer um pode fazer um arranjo, mas para fazer a harmonia é preciso conhecer a mata brasileira. Aqui em Buenos Aires, o desafio é ainda maior porque a flora é menos evidente.” Suas obras enfeitam, uma vez por mês e há seis anos consecutivos, os almoços de executivos da Petrobrás. E ainda as vitrines da Cartier, da sorveteria Volta, das butiques Mont Blanc e Ermenegildo Zegna, esta última inaugurada recentemente na Avenida Alvear. “Jamais repeti um arranjo para as empresas. E trato sempre de combinar as cores das flores com seus símbolos”.

O florista lembra o desafio que enfrentou quando foi chamado para fazer o primeiro trabalho para a Cartier. “Fiz uma série de arranjos até acertar. Mas valeu a pena. A gerente-geral gostou e tirou fotos que percorreram outras lojas da Cartier no mundo”, conta. A cada novo desafio, Astolfo entende que é hora de aprender, de crescer, de avançar. Capricorniano, ele acha que seu signo justifica seu perfeccionismo.

Por isso, além de repetir infinitas vezes um arranjo até chegar ao seu objetivo, ele pode passar noites sem dormir até gostar do resultado antes de entregar a encomenda. “Se não me agrada, não serve, apesar de eu sempre conversar com o cliente para captar seu gosto, para entender o que está querendo das flores”, diz. Uma vez, lembra, ele fez 250 arranjos para a inauguração de um porto da Bunge – empresa de peso do ramo de agronegócios na Argentina– e trabalhou dois dias, ininterruptos e sem dormir, até conseguir o equilíbrio e beleza que buscava.
Astolfo é um eterno aprendiz do que já faz com tanto profissionalismo e sucesso. O gerente-geral de design da Ermenegildo Zegna, de nacionalidade japonesa, responsável pela vitrine da loja em várias partes do mundo, esteve em Buenos Aires só para cuidar da fachada da estréia, recorda Astolfo.“Ele só fala inglês e mesmo assim nos entendíamos”, afirma. “Aquele homem mostrou para mim que uma folha e um grão de areia, no lugar certo, fazem sim uma bela diferença”. E prossegue: “Eu dominava o assunto, já fazia arranjos há anos, mas não tinha a percepção que ele tinha. Foi um ótimo desafio porque quando a gente tem humildade para aprender, a gente está sempre crescendo, ampliando horizontes”.

Mas como foi que esse mineiro, filho de uma costureira e de um comerciante, veio parar em Buenos Aires, onde tem hoje uma lista de 26 clientes de luxo? Vale a pena percorrer sua trajetória. Aos 17 anos, ele trabalhava como revisor de matérias no jornal Diário do Rio Doce. Aos 20, começou como escriturário no Bradesco e seis anos mais tarde, já era chefe de seção – nome oficial para gerente de crédito imobiliário, de pessoas físicas e jurídicas. Pouco depois, foi convidado para ser gerente de contas do extinto Bemge (Banco do Estado de Minas Gerais), para onde foi ganhando três vezes mais. “Foi um upgrade na minha vida”, diz. Ao todo, trabalhou dezesseis anos em bancos até que, com o processo de privatização do Bemge, transferiu-se para uma agência de automóveis. Mas não era, digamos, a sua praia. “Foi um ano parado, sem aprender nada. Gosto de carro para dirigir, mas não para vender”. Passou, então, a trabalhar numa representação de importação e exportação de produtos e foi mandado para Buenos Aires para oferecer um protetor de câmara de ar para pneus de caminhões. Dali às flores foram apenas alguns meses.

Astolfo trabalhou em um quiosque de flores e viu que ali havia um mundo de oportunidades. Quatro meses mais tarde, alugou esse mesmo quiosque e fez seu próprio negócio. “Eu vi que aquilo era uma mina de ouro”, lembra. “Construí um jardim botânico na esquina das avenidas Callao e Córdoba e comecei a criar. Fiz troncos com bromélias, coloquei pedras nos arranjos”. Aquele quiosque foi a vitrine de Astolfo – nosso brasileiro de sucesso, que ainda hoje é chamado, por muitos, de “Brasil”. Um apelido que nasceu de sua nacionalidade, obviamente, mas também da criatividade – à brasileira, claro – de seus arranjos de flores. “Dois anos depois de começar com meu próprio quiosque, me pediram a primeira coroa de flores. Jamais tinha feito uma. Mas fiz e a entreguei pessoalmente. Sempre gostei de desafios, mas coloco a mão onde sei que alcanço”.
Entre seus primeiros clientes, está a Embaixada do Brasil, que contratou trabalhos que o ajudaram a se projetar. Na primeira visita do presidente Lula a Buenos Aires, logo depois de eleito, em 2003, fez arranjos com cáctus – “homenagem às origens do presidente”. Astolfo chegou a ter sete pontos de venda de flores – dos quais, cinco eram quiosques. “Eu acordava cedo, dormia tarde e vivia correndo de um lado para o outro. Chegou um momento que eu dormia em pé”. Nove anos mais tarde, Astolfo, considera-se um eterno exigente consigo mesmo, alguém que quer continuar aprendendo, em cada oportunidade que a vida lhe oferece. “Daqueles anos trabalhando em banco, aprendi que não se deve desperdiçar e nem jogar nada fora. Por isso, não jogo fora nem casca de batata. Aprendi ainda a atender bem o cliente e a ser responsável por cada detalhe do negócio”. Hoje, graças à sua persistência e a seu talento, Astolfo pode escolher os clientes. E você é feliz?, perguntamos. E ele: “Sou realizado profissionalmente e muito feliz”. Voltar para o Brasil? “Não, estou bem aqui, onde posso oferecer o diferente. No Brasil, somos muitos no mesmo ramo”. E onde você acha que aprendeu a fazer arranjos? “Acho que é algo espiritual. Já fiz arranjos nos quais acabei chorando muito”, confessa, com os olhos marejados. E qual é seu sonho?“Meu sonho já é realidade e eu só quero continuar fazendo o que faço, cada vez aprendendo mais, e encontrar pessoas que possam me lapidar mais”. O espírito de vida de Astolfo é parte decisiva do seu sucesso.

BRASIL PLANTAS E FLORES
Córdoba 1750
Telefone: 4815-8732
brasilplantasyflores@yahoo.com.ar

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