ENCONTRO DE VOZES
E GERAÇÕES BRASILEIRAS
EM BUENOS AIRES
Era a primeira vez que Juju da Silva, Stella Delphino, Ecilla de Souza e Hélida Paulino sentavam-se juntas à mesa para uma conversa sobre música, Brasil, Argentina, família e amigos. Ao longo de três horas e meia, no restaurante Me Leva Brasil (*) entre água (apenas), pão de queijo e feijoada, elas contaram suas trajetórias e falaram de seus desafios.
Com o palco e o público como paixões comuns, Juju (Yuyu,
em espanhol), Stella, Ecilla e Hélida provaram que é possível
realizar um harmonioso encontro de vozes e gerações. Juju
ficou famosa aqui, cantando La Mamadera, em diferentes
rádios e palcos do país. Quando Stella chegou a Buenos Aires,
na década de sessenta, Juju já era famosa na Argentina e em
várias partes do mundo. “Quando eu cheguei aqui, só dava
ela nas rádios”, recorda. Juju e Stella são amigas de muitos
anos. Stella também conhece bem o trabalho e talento de
Ecilla, ex-dançarina do grupo Oba-Oba, de Sargentelli, que
participou de vários de seus shows.
Hélida, a mais jovem das
quatro, começou a carreira cantando gospel. No encontro,
Juju recordou seus antigos companheiros, como Grande
Otelo e Elizeth Cardoso; Stella surpreendeu ao revelar que
foi uma das musas inspiradoras do cartunista Lan; Ecilla
lembrou as viagens que fez pelo mundo como integrante
do Oba-Oba e Hélida suas participações em programas
de TV, aqui e no Brasil. Elas riram, se emocionaram,
fizeram batucada e só concluíram a conversa – daquele
dia – porque tinham outros compromissos. Esse encontro
de gerações, de sabedoria e ousadia, de charme e talento,
poderia entrar pela noite adentro e ainda teríamos perguntas
a fazer. As artistas terminaram a conversa cantando Cidade
Maravilhosa, um improviso que saiu como se fosse ensaiado
e que colocamos na página eletrônica deste Jornalzinho
(www.conbrasil.org.ar), para aqueles que gostam da música
nacional. A seguir, a história destas cantoras brasileiras,
donas como só elas do ritmo e do domínio do público.
Detalhe: durante a entrevista, enquanto cantavam, elas foram
aplaudidas pelos clientes do restaurante, surpreendidos por
essas cariocas – da gema, do samba, da bossa nova, do charme. Essas brasileiras!
(*) Me Leva Brasil:
Costa Rica 4488 esq. Malabia Palermo Viejo
Buenos Aires - Argentina
TE: (011) - 4832-4290
Quatro histórias, a mesma paixão e o mesmo destino: a música e a vida em Buenos Aires. Juju da Silva nasceu em Copacabana e chegou a Buenos Aires quando já era famosa no Brasil. A carreira de Juju inclui rádio, cinema e palcos pelo mundo. Ela começou a cantar aos onze anos, na rádio Tupi/Tamoyo, quando o rádio era – e para muitos ainda é – o principal veículo de comunicação no Brasil. Aos 17 anos de idade, em 1956, seu amigo Grande Otelo a convidou para participar do filme Depois eu conto. Juju brilhou ao lado de estrelas das telas brasileiras, como o próprio Otelo e ainda Ancelmo Duarte, Eliana e Dercy Gonçalves. “Outro dia mesmo, a TV Globo Internacional exibiu esse filme e muita gente me ligou para dizer que eu continuo igualzinha”, afirma.
Juju ainda era contratada da Tupi/Tamoyo quando esteve na rádio Farroupilha, do Rio Grande do Sul, para cantar. Saiu de lá com um presente: a música que anos depois, na década de 1960, a transformaria em sinônimo de música brasileira na Argentina – La Mamadera, de Osmar Saffety. “Foi uma loucura. Por onde eu passava, as pessoas me pediam pra cantar La Mamadera. Crianças, adultos. Uma música que ainda fascina muita gente”, conta.
Juju vive em Buenos Aires há 49 anos. Sua trajetória é puro encanto. Amigas como Elizeth Cardoso e Alcione, apresentação no antigo programa do Chacrinha e shows na Turquia, Bulgária, Romênia, Itália e em Israel, onde morou uma temporada. Juju gravou dois LPs na França, de onde a fama a levou para outros países. “Naquela época, eu voltava para fazer os bailes de carnaval em Buenos Aires”, recorda. “E em Israel, eu fazia o povo todo se mexer”. Na mesa do restaurante Me Leva Brasil, ao lado de Stella Delphino, Ecilla de Souza e Helida Paulino, Juju cantarolou La Mamadera e A Filha do Pescador – essa, em hebreu, porque assim fazia o público delirar com sua voz e seu gingado. A letra de La Mamadera merece um parágrafo à parte. Aqui vai:
“Hay que darle, la mamadera. Mi negro, hay que darle, la mamadera. Si el nene no duerme, no puedo bailar. Por eso, hay que darle, la mamadera (…) Mira, papito, hay que darle la mamadera. Si ensuciar mi ropa, lo voy a pegar. Hay que darle la mamadera.”
Essa canção deu muitas alegrias a Juju e a muita gente, como ela mesma lembra. “Quando gravei essa música, em 1960, a (gravadora) Odeon teve que recontratar o pessoal que tinha demitido recentemente, tamanho o sucesso que ela provocou”, afirma. Há pouco tempo, atendendo a pedidos, Juju voltou a cantar a música que marcou sua carreira, no cassino Trilenium, no Tigre. Foi a noite de Juju da Silva. E o público, recorda ela, vibrou. “O lugar lotou tanto que não tinha espaço para as pessoas colocarem o pé no salão.”
Stella Delphino, Hélida Paulino, Juju da Silva, Ecilla de Souza.
A história de Stella Delphino com a música não é diferente. Paixão total. Nascida no bairro de Botafogo, ela se define como “carioca da gema”, adora dar boas gargalhadas e conta que nos palcos de Buenos Aires é sempre apresentada como “a senhora do samba”. Naquela mesa do restaurante em Palermo, ela revela que foi musa inspiradora dos desenhos do famoso cartunista ítalo-argentino, brasileiro de coração, Lan, com quem foi casada e com quem manteve a amizade. “Ainda guardo os desenhos que ele fez de mim”, diz. Na conversa, ela recorda que trabalhou com o cantor e compositor Herivelto Martins, no “Trio de Ouro”, que a levou a viajar pelo Brasil com “Stella e suas cabrochas” – oito artistas, sambistas e cantoras que faziam coro, por exemplo, para Emilinha Borba e Angela Maria. A carreira inclui também o programa de auditório de César de Alencar, na rádio Nacional, e ainda, também na década de cinqüenta, os espetáculos “Quem inventou a mulata” e Fogo na Pipoca - que ela dividia com Virgínia Lane. Stella ama o que faz e costuma dizer: “Eu sou cômica e dramática. E não recuso trabalho. Vivo disso. Já toquei surdo em um show da Juju, aqui em Buenos Aires, e já rodei baiana num espetáculo. Artista é isso”, fala e ri.
A vinda de Stella para Buenos Aires foi quase por acaso. Em 1960, ela chegou com um grupo brasileiro para fazer shows no Teatro Maipo - que acaba de completar cem anos - e também no Automóvel Clube e no então Club de Comunicaciones.
Era uma jornada intensa, uma apresentação após a outra. “Quando já estavamos esgotados, nos disseram que iríamos para a província de Santa Fé. Eu disse que não ia, que não agüentava mais e que os esperaria aqui mesmo em Buenos Aires. Eles foram embora de volta para o Brasil, me deixaram, e eu fiquei sem um tostão para voltar pra casa” recorda. Stella enfrentou uma temporada de dificuldades: “Passei inverno com roupa de verão. Morei numa pensão e não tinha dinheiro
para nada. Quando eu cheguei aqui, a Juju já arrebentava a boca do balão, só dava ela nas rádios”. Stella contou com a ajuda de amigos e aqui foi ficando, até que virou a principal estrela da famosa casa de shows Maison Doré, na esquina de Viamonte com Florida, onde ficou por 23 anos. “Tinha gente que achava que eu era a dona do lugar. Meu nome era a referência da casa”. Uma vez, lembra, a cantora Angela Maria esteve em Buenos Aires e comentou que estava contente em saber que a amiga era a dona da Maisón Doré. Como se vê, o
boato era forte mesmo.
Stella apresentou-se em Buenos Aires com muita gente famosa, como Cauby Peixoto. E antes de chegar ao palco da Maison, cantou em outras casas conhecidas na época, como Vadinho, Belgrano e Papagaio, onde ficou por 18 anos. “Na década de sessenta, um carnaval que fiz registrou a segunda maior arrecadação da época”, conta. Stella tem vocabulário de mulher de vinte e adora rir do que ela mesma fala. Vaidosa, pinta seus cabelos de branco porque “ficam mais bonitos”.
“Se não pinto, ficam cinza. Detesto cabelo cinzento”. Ela também gosta de se vestir com as cores da moda e de estar sintonizada com o que acontece no Brasil. Hoje, ela tem três filhos, 14 netos e 12 bisnetos – parte da família aqui e parte no Brasil.
Naquela tarde de outono em Buenos Aires, as quatro artistas encontraram alguns pontos em comum, apesar de Juju ter desembarcado em Buenos Aires há quase cinqüenta anos, Stella há quarenta e oito anos, Ecilla há quinze anos e Helida há apenas três anos. A Argentina, o Brasil e o mundo mudaram muito nestas etapas. Mas na hora de definir, por exemplo, um estilo musical brasileiro – além da Cidade Maravilhosa -, elas escolheram os sons da bossa nova. Para Juju, Stella, Ecilla e Hélida, essa fase da música brasileira, que acaba de completar cinqüenta anos, não tem mesmo idade. Elas concordaram ainda, em pelo menos outros dois pontos: na Argentina de outras épocas, quando a presença de brasileiros era menor, talvez fosse mais fácil conquistar os palcos deste país vizinho ao Brasil. Não que o interesse dos argentinos tenha diminuído – ao contrário, e as recentes visitas de artistas brasileiros, como Adriana Calcanhoto e Lenine, que lotaram teatros da cidade, estão aí para confirmar. Mas aumentou muito o número de brasileiros que desembarcam aqui em busca de oportunidades e aí a competição é maior. “A Argentina em que Juju e Stella viveram era bem diferente. Hoje, a competição é maior mesmo”, confirma Ecilla. Além da música, elas têm outro ponto em comum: a saudade do Brasil. Mas o repertório brasileiro, que adotaram em seu shows, ajuda a matar essa saudade.
“Juju e Stella, e o que vocês pensam das novas gerações que estão chegando?”, pergunta Hélida. “Acho ótimo”, responde Stella. “Acho bom também, mas só que nós deveríamos ajudar os que chegam. Nós estamos aqui há tanto tempo e, muitas vezes, eles nem sabem da nossa trajetória”, completa Juju. Definitivamente, os caminhos focam para o encontro de gerações. Hélida começou a cantar, aos quatro anos de idade, música gospel, numa igreja em Realengo, bairro onde morava com os pais, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. A família de sua mãe é de cantores de gospel e a do pai, de músicos. “Muita gente me dizia que eu deveria vir para Buenos Aires para cantar”, recorda. Mas antes realizar esse projeto, aos 17 anos, ela gravou o disco Elohim (o Deus criador), distribuído entre igrejas evangélicas. Foi somente três anos mais tarde que ela mudou seu estilo musical e começou a cantar bossa nova.
Hélida se apresentou, durante um ano, no programa do crítico de música e compositor José Messias, na radio Nacional, no Rio. E saiu de lá com uma lembrança – uma música que ele compôs em sua homenagem: Empresta o teu sorriso.
2. Embaxaidor do Brasil em Buenos Aires, Mauro Vieira, Renato (violão),
Stella, Presidente Lula
da Silva, Juju, Ecilla, Jorge Luis (bateria)
e Daniel López (baixo).
1. Juju, Ecilla e Stella,na apresentação em homenagem
do Presidente Lula, na Embaixada do Brasil.
(Nota em www.conbrasil.org.ar)
A trajetória de Hélida inclui aparição, em 2004, no quadro
“novos talentos”, no programa Caldeirão do Huck, da TV
Globo. A carreira de Hélida parecia promissora no Brasil.
“Mas por que você veio para Buenos Aires?” “No Brasil,
somos muitos. É muita gente boa e com talento. Competição
grande”, afirma. Assim que chegou a Buenos Aires, em
2005, ganhou um concurso cantando uma música de Daniela
Mercury – O Canto da Cidade - no programa Show Match, do
apresentador Marcelo Tinelli. Em 2006, na MTV Latina, ela
gravou um clip cantando em espanhol e recebeu a aprovação
de 92% do público que votou por telefone.
Ecilla chegou a Buenos Aires há quinze anos. Como Stella pensou que vinha por pouco tempo, mas acabou ficando. Hoje, conta feliz, que é casada com Xavier, argentino, com quem tem dois filhos – Regina, de 9 anos, e Ignácio, de 4 anos. “Vim passar uma semana e já estou há quinze anos”, diz. E por quê ficou? “Porque me apaixonei pelo meu marido”, revela. Ecilla conseguiu unir amor e trabalho.
“Quando cheguei entrei no Sambatuque (conjunto brasileiro de música brasileira), onde trabalhei quatro anos, cantando e dançando. Logo conheci a Stella e já tinha ouvido falar na Juju. Tempos depois, conheci a Hélida numa festa”. Ou seja, naquela mesa, no Me Leva Brasil, Ecilla era a única que já conhecia todas as outras convidadas para a entrevista.
Ecilla também teve carreira de sucesso no Brasil, antes de desembarcar na Argentina. “Trabalhei no Rio, no Oba-Oba, do Sargentelli (Oswaldo Sargentelli/1924-2002). Fiquei dez anos lá, e viajando sem parar. Viagens pelo Brasil e pelo exterior”, afirma. Ecilla participou dos shows do grupo em Buenos Aires, em 1989 e 1991, quando ainda não imaginava que aqui seria
sua casa um dia. “Mas a primeira viagem internacional foi para
o México, e incluiu também nove meses seguidos em Aruba.
Depois, fui para a Venezuela, Curaçao e Espanha, durante um
ano. Mais tarde, três meses em Los Angeles (Estados Unidos)
e Foz de Iguaçú, onde inauguramos uma filial do Oba-Oba. E
lá morei três anos”, recorda. Até que um dia ela veio visitar
um afilhado na capital argentina e conheceu o marido. Em
Buenos Aires, Ecilla estudou canto lírico e depois popular,
com aulas particulares. Mas na hora de fazer seus shows o
repertório inclui bossa nova. “Canto principalmente bossa
nova, mas também samba-reggae, Ivete Sangalo e MPB”,
diz. “Mas sempre tem um argentino que pede Você abusou e
também La Chica de Ipanema, que é como eles lembram de
Garota de Ipanema”. Mas Ecilla também se dedica a outras
experiências, além da música. “A minha principal profissão
hoje é o paisagismo. E foi por causa desse trabalho que tirei
carteira de motorista”, destaca, orgulhosa.
Ecilla, Hélida, Stella e Juju não têm apenas a música como
fator comum, mas a busca incansável por realizar seus sonhos.
Por isso, perguntamos a cada uma delas: qual é o seu sonho?
Stella respondeu que o sonho dela é continuar com a saúde
que tem hoje e cantando e “rebolando” muito, como diz, nos
palcos. “Se você tem saúde, você tem tudo”. Hélida afirmou:
“Meu sonho é poder me destacar na profissão e ajudar aqui
meus irmãos brasileiros.” Ecilla respondeu que seu sonho é
ver os filhos adultos. O sonho de Juju é ser convidada para
o programa do Jô Soares, na TV Globo, onde gostaria de
contar suas histórias e dar, confessa, boas gargalhadas. “Eu
queria muito rir com o Jô e todo aquele pessoal”, diz ela. E
gostaria, sugeriu, que o encontro no Me Leva Brasil, com as
outras artistas, não seja o primeiro e último. A apresentação
que fizeram em homenagem ao Presidente da República, sem
dúvida, superou todos esses sonhos ...